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A fabricante alemã de canetas-tinteiro, que revolucionou a escrita no início do século 20, tornou-se sinônimo de elegância, status e bom gosto, com equilíbrio entre o trabalho artesanal, a tecnologia e o acabamento de joalheria.
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[Matéria publicada originalmente na Fashion Eyes vol. 3, em agosto de 2018, e atualizada para este site. A revista, impressa fisicamente com tiragem de 20 mil exemplares, tem Andrea Tavares como editora e é uma publicação da GO Eyewear.]
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O produto antes do nome
As raízes da Montblanc remontam a 1906, quando o comerciante de Hamburgo, Alfred Nehemias, e o engenheiro nascido em Berlim, August Eberstein, voltaram de uma viagem aos Estados Unidos encantados com a recém-criada caneta-tinteiro. Para a época, era um avanço e tanto uma caneta com um reservatório de tinta embutido, muito inovador em relação às penas usadas até então. A dupla logo estabeleceu sociedade com um empresário de papelaria, Claus-Johannes Voss, para fabricar canetas-tinteiro na Alemanha.

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Assim, fundaram a Simplo Filler Pen Co., a fim de produzir pequenos lotes de canetas-tinteiro exclusivas. Lançaram o primeiro modelo em 1908, batizado de “Rouge et Noir” (do francês, “vermelho e preto”, já que a caneta era preta com um detalhe vermelho na extremidade da tampa). O nome foi inspirado no título do livro do escritor francês Stendhal, O vermelho e o negro.

Tecnicamente aprimorado, o segundo lote do produto, lançado no ano seguinte, ganhou o nome “Montblanc”, uma referência à maior montanha da Europa Ocidental, que significa “monte branco”, fazendo também uma analogia ao avanço na tecnologia e na técnica artesanal que a novidade representava. O desenho na tampa da caneta, uma espécie de estrela branca de seis pontas arredondadas, que traduzia a neve sobre o pico da montanha, antecipava o que viria a ser o logotipo da marca. Em 1913, a caneta já era um best-seller na Alemanha e em outros países, e a empresa passou a se chamar Montblanc Simplo GmbH.


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Um século de história
Em 2006, para comemorar o seu centenário, a Montblanc lançou um diamante exclusivo, caracterizado pela forma da legendária estrela, como um símbolo dos valores e dos êxitos alcançados pela marca. Um dos instrumentos de escrita que celebrou a data foi batizado de Mistery e produzido em parceria com a joalheria francesa Van Cleef & Arpels, com apenas nove exemplares no mundo.


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Obra-prima
Ao longo das décadas, a Montblanc tem deixado claro que a forma mais correta de denominar suas canetas é chamá-las de “instrumentos de escrita”, tamanhos o requinte da produção, a exclusividade e o culto à arte de escrever.

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O grande avanço tecnológico na história da marca ocorreu em 1924, com o lançamento da Montblanc Meisterstück (do alemão, “obra-prima”). Produzido em resina de alta qualidade na cor preta e decorado com três anéis de metal banhados a ouro na tampa, o modelo fez jus ao nome e tornou-se um clássico eterno, ganhando espaço permanente no acervo de design do Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York.

Em 1929, seu bico de ouro ganhou a gravação “4810”, em referência à altura em metros do Mont Blanc. Já o número “149” designa a classificação do tamanho da pena, de 27 milímetros. Outra inovação importante no mesmo ano foi a instituição da garantia vitalícia, assegurando que uma peça passe de uma geração a outra.
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A sequência da Meisterstück
Graças a seu design atemporal, a Meisterstück transformou-se no carro-chefe da empresa: até hoje, diversas coleções derivam dessa primeira versão. Um exemplo recente é a edição especial Le Petit Prince, em homenagem ao Pequeno Príncipe, o célebre personagem do livro de mesmo nome, escrito pelo francês Antoine de Saint-Exupéry.

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Desde 1992, a Montblanc lança, anualmente, edições limitadas em homenagem a personalidades que estimularam a arte e que também derivam da primeira leva de 1924. A versão 2018 é um tributo ao Rei Ludwig 2º da Baviera (1845 – 1886), cujo legado cultural inclui o apoio ao compositor Richard Wagner (autor de óperas como Tristão e Isolda e Parsifal), ao teatro e à construção de palácios dignos de contos de fadas.

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Outros lançamentos de destaque são a homenagem à estrela de Hollywood, Marilyn Monroe, para a série Muses, e à icônica banda The Beatles para a série Great Characters. Tais instrumentos de escrita rapidamente tornam-se itens de colecionador.

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A chegada ao varejo
Somente em 1919, mais de uma década após sua fundação, a Montblanc inaugurou a primeira butique própria, em Hamburgo, com venda de canetas e outros produtos como papéis, lápis e tinta, em um formato precursor das lojas-conceito de marcas de luxo. Logo também foram inaugurados pontos de venda em outras cidades da Alemanha, além de Londres, Paris e Barcelona.
Nesse período, a publicidade norte-americana inspirou a empresa a lançar campanhas inovadoras como a pintura de canetas gigantes nas laterais de aviões e até um painel na fachada de um prédio na capital francesa. No final dos anos 20, os produtos Montblanc já eram comercializados em mais de 60 países.

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Desenvolvimento e apoio às artes
Depois da Segunda Guerra Mundial, nos anos 40, a Montblanc recebeu apoio do ministério da Fazenda alemão para reconstruir suas fábricas e escritórios, tal era sua importância para o país. A década seguinte foi dedicada à pesquisa e ao aprimoramento da qualidade das matérias-primas, especialmente plásticos, que se tornaram mais resistentes e passaram a ter um brilho mais duradouro. Na década de 60, além do sucesso da Meisterstück, a Montblanc passou a se dedicar ao lançamento de novos designs, mais leves e esguios.

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Em 1977, a marca foi adquirida pelo grupo inglês Dunhill, tornou-se nome consolidado no mercado de luxo e, em 1986, adotou o slogan “Montblanc, the art of writing” (“a arte da escrita”), reafirmando seu compromisso com o apoio às artes, à literatura, à dança e à música. Desde então, lançou inúmeras edições limitadas em homenagem a escritores e personalidades considerados patronos da arte. Até hoje, a empresa realiza doações a festivais, exposições, concursos e instituições.

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Em 1997, ingressou no segmento de relógios de luxo, e seu comando mudou de mãos com a venda para o conglomerado de luxo suíço Richemont, detentor de marcas como Cartier, Piaget e Van Cleef & Arpels.
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O segredo do sucesso
O processo de fabricação rigoroso e a fórmula da resina utilizada para obter um corpo lustroso – cuja composição é mantida em segredo – são alguns dos processos que garantem a qualidade e a exclusividade dos instrumentos de escrita Montblanc. As 60 etapas de produção de uma única peça podem levar um mês de muito trabalho manual, que resultam em uma escrita de precisão absoluta.
Se as duas metades da pena cortadas com lâminas de diamante não forem perfeitamente alinhadas, a escrita é comprometida. Além disso, cada peça é rastreada por um sistema intitulado Quo Vadis (do latim, “para onde vais?”), por meio da gravação de numerações a laser que permitem registrar a identificação do cliente no momento da compra e ainda rastrear canetas em pontos de venda não autorizados. No centro financeiro de Wall Street, em Nova York, as canetas Montblanc foram apelidadas de “power pen” (“caneta poderosa”), já que são usadas na assinatura de acordos importantes.


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Muito além das canetas
O universo Montblanc não se limita apenas a instrumentos de escrita. Ao longo das décadas, a marca tem ampliado sua área de atuação. Um marco importante ocorreu em 1926, com o lançamento da linha de artigos de couro, que passou a ter produção própria nove anos mais tarde, com a abertura de uma oficina perto de Offenbach, na Alemanha – desde 2006, a unidade de peleteria fica em Scandicci, nos arredores de Florença.

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Outro momento marcante foi a fundação da Montblanc Montre, em 1997, na Suíça, para fabricar os relógios da marca. Treze modelos (a maioria masculinos, alguns de ouro maciço, outros com movimento manual, a corda) compunham a primeira coleção, que hoje é dividida em dez linhas, com 242 variações, para homens e mulheres, além de edições limitadas e relógios de mesa.


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Em 2017, a marca lançou seu primeiro smartwatch, o Summit, em parceria com o Google, que conta com funcionalidades como monitoramento cardíaco durante a prática de exercícios e um tradutor ativado por comando de voz. A versão mais recente, o Summit 2, dispõe de aplicativos exclusivos como o Timeshifter, que oferece conselhos personalizados para reduzir os efeitos do jetlag.


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A Montblanc de hoje

A marca alemã, que segue integrando o conglomerado de luxo suíço Richemont, fechou 2018 com 589 butiques espalhadas pelo planeta, sendo 273 unidades próprias e 316 franqueadas.

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Desde a celebração de seu centenário, tem expandido suas linhas de produtos e se aproximado do público feminino, com o lançamento de joias, perfumes, carteiras, bolsas, óculos e modelos mais delicados de canetas. Além disso, nomeou embaixadores conhecidos do público, como o ator australiano Hugh Jackman e a campeã de equitação e neta dos príncipes Rainier e Grace Kelly, de Mônaco, Charlotte Casiraghi.

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Há quatro anos, a marca conta com a colaboração do badalado designer australiano Marc Newson, convocado para conferir uma nova linguagem estética aos instrumentos de escrita. O primeiro fruto dessa parceria foi a Montblanc M e, desde então, já se sucederam outras edições, como a Montblanc M Ultra Black e a Montblanc M RED.

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Em 2017, optou por focar na tecnologia, ao adotar o conceito batizado de “Neo”, com o investimento e a criação de produtos inovadores. O primeiro resultado dessa nova estratégia foi o smartwatch Summit.
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Couro retrô: celebrando os 80
Em junho, a Montblanc lançou uma coleção-cápsula de seus artigos de couro que celebra a nostalgia dos anos 80. É a Meisterstück Soft Grain Mix Tapes, uma referência às fitas cassete, aos aparelhos de Walkman e aos sistemas de som portáteis (as boomboxes), tão característicos daquela década, marcada pela experimentação e a ruptura cultural. Época em que a própria Montblanc ultrapassava seus próprios limites, explorando novos designs, de joias a artigos de couro.


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StarWalker: a terra vista da lua

A exploração espacial e os 50 anos da chegada do homem à Lua renderam, recentemente, a série StarWalker, composta por três instrumentos de escrita com domos translúcidos sob o emblema, evocando a aparição da Terra no horizonte lunar. O rosto dessa nova série é o sino-americano Leroy Chiao, astronauta aposentado, fascinado pelo universo desde menino e que esteve no espaço por 229 dias, distribuídos entre quarto missões, uma delas como comandante da Estação Espacial Internacional.



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O legado da Montblanc
- A estrela branca de pontas arredondadas, que remete à neve no pico dos alpes franceses, o Mont Blanc
- A caneta Meisterstück
- O culto à arte da escrita
- A garantia vitalícia
- As edições limitadas em tributo a escritores e patronos da arte
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Joias para os olhos
O design impecável presente nas canetas Montblanc se transfere para todos os produtos da marca e nos óculos não poderia ser diferente. A coleção de armações de receituário e óculos solares é desenvolvida, produzida e distribuída pela Kering Eyewear desde 2018 e traz uma sensação de eternidade, tanto pelo design atemporal como pelo uso de materiais de alta qualidade – a marca alemã estreou no universo dos óculos em 2002, quando assinou com a Marcolin, cuja licença passou às mãos da Kering no ano passado.
A típica estrela que simboliza a neve do pico Mont Blanc dá o toque final às peças. Este ano, a grife passou a ser distribuída com exclusividade no Brasil pela GO Eyewear, dando sequência à parceria estratégica entre a empresa brasileira e o conglomerado francês.
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Mondo by Lady é uma derivação digital dos conceitos Mondo Fashion e Mondo Marca que Andrea Tavares desenvolveu em eras impressas. Traduzindo o universo das marcas, Mondo Fashion se referia aos textos sobre as grifes de moda e Mondo Marca, às marcas de outros gêneros, ambas sempre relatando em detalhes a origem, os pontos altos, os ícones, as curiosidades e as suas coleções de óculos.
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Montblanc nas redes
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